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A primeira colonização alemã no Brasil / Fazenda Pombal, Colônia Leopoldina, Bahia - Artigo

  • Foto do escritor: Fotografia e Nostalgia
    Fotografia e Nostalgia
  • 22 de dez. de 2025
  • 6 min de leitura

A primeira colonização alemã no Brasil / Fazenda Pombal, Colônia Leopoldina, Bahia - Artigo

Artigo



Onde teve início a colonização alemã no Brasil? Muito já se debateu, rixas se criaram e até uma lei a respeito foi sancionada.

São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, são as respostas mais comuns. Historiadores, em geral, apontam a cidade gaúcha como o real ponto de início. Em 2011, uma lei federal decretou o município o "Berço da Colonização Alemã no Brasil".

Mas São Leopoldo é, na verdade, a mais antiga colônia que sobrou para contar a história. É a que ainda está aí. Os primeiros germânicos que se estabeleceram no território nacional não foram para a região serrana do Rio nem para o Vale dos Sinos gaúcho.

Eles foram para a Bahia. A área que, décadas mais tarde, se tornaria a terra do cacau e das histórias de Jorge Amado, quem diria, é o real berço dos "alemães tropicais".

A colônia Leopoldina foi o primeiro dos cerca de 15 assentamentos agrícolas de imigrantes europeus estabelecidos na Bahia ao longo do século 19. Além de ter sido pioneira, foi a mais bem-sucedida, tanto pela longevidade quanto pela importância econômica na região.

No extremo-sul da Bahia, nas proximidades de Vila Viçosa (hoje Nova Viçosa) e de Santo Antônio das Caravelas (um antigo distrito de Caravelas), o naturalista José Guilherme Freyreiss distribuiu sesmarias para colonos alemães e suíços. A medida seguia um decreto instituído em 1808 por dom João 6º, que permitia doar terras a estrangeiros.

O projeto só decolou porque adotou mão de obra escrava. O plantio de café trouxe relevância, e foi assim que Leopoldina se diferenciou de outros assentamentos de colonos, nos quais o trabalho braçal ficava com os próprios imigrantes.

Em vez de mão de obra europeia e pequenas produções agrícolas, escravidão e café. Era uma espécie de aclimatação à realidade econômica brasileira.

Fundada em 1818, a colônia ganhou esse nome em homenagem à princesa Maria Leopoldina, que no ano anterior havia se casado com Pedro 1º, então herdeiro do trono do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Leopoldina era filha de Francisco 2º, último imperador do Sacro Império Romano-Germânico e, portanto, um elo muito importante na conexão entre o Brasil e os povos germânicos.

Ferdinand Schröder, no livro "A Imigração Alemã para o Sul do Brasil até 1859" cita uma carta entre autoridades teutônicas dos anos 1820 que evidenciava essa ligação:

"O poder dos alemães residentes no Brasil tornar-se-á, pois, muito significativo com o decorrer do tempo, e não se pode calcular a influência desse fato, bem como da feliz circunstância que levou ao trono brasileiro a filha de imperador alemão nesta funesta época, sobre o desenvolvimento futuro de um reino, no qual em decorrência da novidade de seus habitantes ainda parece faltar um cunho nacional determinante."

Aquela era uma época tumultuada na Europa Central. As Guerras Napoleônicas levaram ao colapso o decadente Sacro Império, em 1806. Em 1815, no Congresso de Viena, que redesenhou a Europa após a derrota de Napoleão, surgiu a Confederação Germânica, uma associação de Estados alemães liderada por Áustria e Prússia.

Uma Alemanha poderosa, rica e unificada ainda estava a várias décadas de distância. Aquele dos anos 1810 era um outro contexto, que estimulava a imigração. Por isso, mais colônias surgiram na sequência, tanto na Bahia quanto em outras províncias brasileiras.

Em 1819, o governo imperial assentou famílias suíças na serra fluminense. Na mesma época, um empreendedor alemão chamado Georg von Schäffer se aproximou da princesa. Com autorização real, ele fundaria colônias como Frankental, que ficava próxima a Leopoldina.

Segundo Schröder, em 1822 Schäffer partiu em missão política à Europa a fim de recrutar mais imigrantes para o recém-independente Império do Brasil (aliás, a luta pela independência, na Bahia, teve participação relevante dos colonos alemães). Isso chamou a atenção do governo de cidades como Hamburgo.

"Schäffer fora incumbido pelo governo brasileiro de ir à Alemanha e trazer soldados para formarem o Batalhão de Estrangeiros, necessário para reforçar a defesa dos territórios do Sul", explica a historiadora Mary del Priore.

O pagamento de Schäffer dependeria da quantidade de pessoas que se imigrariam, então ele acabou apelando para sujeitos "de origem duvidosa", segundo a autora. "Os documentos atestam o recrutamento de centenas de presidiários alemães em cadeias e casas de correção."

Não foi a primeira vez que Schäffer se destacou por seus métodos pouco ortodoxos. Antes disso, ele havia se intrometido em um enrosco do outro lado do mundo.

Em 1824, Pedro 1º recebeu a inusitada visita de Kamehameha 2º, rei do Havaí. Foi a primeira vez que um chefe de Estado não europeu chegou a um país latino-americano.

O rei do Havaí estava à procura de apoio internacional, uma vez que seu país vinha sendo assediado por potências estrangeiras. Viajou à Europa defendendo essa causa e, no caminho, passou pelo Brasil.

A preocupação do rei começou na década anterior. Em 1815, a Companhia Russo-Americana, empresa que tratava dos interesses da Rússia nas Américas, tentou recuperar um de seus navios, atingido por uma tempestade no Havaí. O enviado para a missão foi um de seus funcionários: Georg Schäffer.

O alemão se aliou a lideranças rivais de Kamehameha, que o convenceram de que os russos poderiam derrubar o rei facilmente. Schäffer organizou uma investida, mas acabou derrotado em 1817.

Kamehameha conseguiu reprimir a ameaça, mas ficou alerta. Já Schäffer, afastado da empresa russa, foi se aventurar em outras paisagens, até que chegou ao Brasil.

Em 1824, quando Kamehameha estava curtindo o Rio e sua comitiva encantava Pedro 1º e Leopoldina, Schäffer - amigo da imperatriz e inimigo do rei visitante - estava ocupado povoando o Sul. A imigração entrava em uma nova fase.

Naquele ano, Schäffer ajudou a fundar São Leopoldo com as levas de imigrantes que organizava. Além de presidiários de Mecklemburgo, ele contou também com um fluxo de milhares de indigentes, segundo Del Priore.

"Ao saberem que o Brasil estava oferecendo terras, foram para Bremen e Hamburgo em busca de uma passagem, mas se recusaram a assinar contrato de serviço militar", escreveu. "Schäffer recebeu autorização do Rio de Janeiro para permitir a vinda deles mesmo assim."

No Rio, Nova Friburgo corria riscos, até que a chegada de 350 alemães, ainda em 1824, deu um novo gás à colônia. Na Bahia, algumas iniciativas também davam sinais de fracasso.

Fatores como clima, desconhecimento do solo, novas doenças, hostilidades de indígenas, péssimas acomodações e falta de qualificação profissional pesaram contra as iniciativas baianas. É o que explica a historiadora Albene Miriam Menezes, em um artigo a respeito.

"A vida de um colono no século 19 no sul da Bahia era pobre, com uma economia irrelevante, sem importância, cujos principais produtos eram farinha de mandioca, sal, um pouco de açúcar de cana e café, alguma coisa de cacau, e um pouco de madeira. Não havia quase que nenhum contato com outras províncias ou mesmo com a capital, Salvador", explica.

A exceção era Leopoldina. Em 1851, ela tinha 43 plantações de café e uma população composta por 133 pessoas livres e 1.243 escravizadas. A produção cafeeira ia bem, e ainda tinha cana-de-açúcar, arroz e tabaco, além de serrarias e moinhos de mandioca.

Em 1870, Leopoldina chegou a ter 2 mil escravizados. A decadência veio justamente com o fim da escravidão, 18 anos depois.

E como isso terminou? Segundo Menezes, a Alemanha, após a unificação, em 1871, tornou-se uma das maiores investidoras do Brasil. Empresas germânicas se destacaram nos comércios de tabaco e cacau.

Nenhum porto no mundo recebia mais fumo da Bahia, então a maior produtora do Brasil, do que Bremen. Hamburgo era um dos principais destinos do cacau.

Mas "o desenvolvimento econômico da Bahia não era dinâmico o suficiente para preencher as esperanças dos imigrantes e fixar os poucos estrangeiros assentados como colonos em seu território", escreveu. Em 1900, o governo do estado encerrou o programa de incentivo à imigração.

O que restou de Leopoldina é, hoje, Helvécia, um distrito de Nova Viçosa. Além do nome e da estação de trem com inspiração suíça, o local tem uma comunidade quilombola, herança dessa história pouco lembrada do sul baiano.

Quanto a Schäffer, ele teria morrido ali do lado, em sua colônia Frankental, em 1836. Ele tinha tentado ser marquês e embaixador, mas só recebeu negativas do imperador, que lhe concedeu apenas pagamentos em dinheiro pelos serviços prestados. Talvez porque sua amiga e aliada, Leopoldina, morrera cedo, em 1826, com apenas 29 anos.

Menos de 200 anos mais tarde e cerca de 200 quilômetros ao norte, os alemães voltaram com muito mais estardalhaço ao sul da Bahia. A seleção do país escolheu Santo André, em Santa Cruz Cabrália, como base da concentração para a Copa de 2014.

Era um time multiétnico, bem diferente daqueles outros três em que a Alemanha Ocidental foi a campeã. Fruto, justamente, da imigração. Texto de Felipe van Deursen.

Nota do blog: Data da imagem circa 1820 / Autoria atribuída a Bosset De Luze.



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