top of page

Blog destinado a divulgar fotografias, pinturas, propagandas, cartões postais, cartazes, filmes, mapas, história, cultura, textos, opiniões, memórias, monumentos, estátuas, objetos, livros, carros, quadrinhos, humor, etc.

Museu Coronel David Carneiro, Curitiba, Paraná, Brasil

  • Foto do escritor: Fotografia e Nostalgia
    Fotografia e Nostalgia
  • há 60 minutos
  • 10 min de leitura

Museu Coronel David Carneiro, Curitiba, Paraná, Brasil

Curitiba - PR

Fotografia


Texto 1:

A coleção de David Antônio da Silva Carneiro foi sendo constituída ao longo da sua vida, contando com centenas de peças, principalmente relacionadas à temática militar.

O acervo museológico foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 1941 e pelo Estado do Paraná em 29/02/1972.

Foi durante sua infância, na segunda década do século passado, que David Antônio da Silva Carneiro, ajudado por seu pai e por seu avô, iniciou o acervo desse museu, com uma coleção de minerais, fósseis e moedas. Depois de cursar o Colégio Militar do Rio de Janeiro, seu interesse de colecionador passou a abranger também a armaria. Em 25 de julho de 1928 considerou o museu definitivamente fundado, batizando-o com o nome de seu pai – Coronel David Carneiro - , já falecido e que tinha sido marcante personalidade da história paranaense. Um ano depois a instituição passou a ser considerada de utilidade pública. A necessidade de um espaço maior levou David Carneiro a construir uma sede definitiva para onde, em 1931, o museu foi transferido.

O acervo abrange diversas coleções – armaria, vestuário, imaginária, heráldica, mobiliário, etnografia, mineralogia, iconografia e outras -, destacando-se, porém, o material bélico e os uniformes militares usados em 1894, no cerco da cidade da Lapa pelas tropas revolucionárias federalistas. As armas brancas – lanças, espadas, punhais, sabres -, as de fogo – canhões, metralhadoras, pistolas e fuzis -, além da munição, granadas e bombas, exemplificam a evolução do armamento durante quatro séculos.

Ainda, relativo à história militar, inclui o acervo condecorações e distintivos, uniformes, armaduras e couraças, platinas, dragonas e quepes, utilizados pelo Exército brasileiro em diversos períodos.

Ilustrando a evolução do cotidiano da sociedade paranaense estão expostos utensílios de uso doméstico – talheres e louças -, instrumentos musicais e instrumentos de medida, objetos de uso pessoal – cachimbos, canetas, cigarreiras -, mobiliário – marquesas, escrivaninhas, cadeiras e camas -, aparelhos de iluminação – lampiões, candeeiros, lamparinas e castiçais. Complementam o museu a coleção numismática – nacional e estrangeira -, a etnográfica – adornos, vestimentas e instrumentos musicais -, a mineralógica – desenhos, aquarelas e retratos a óleo.

Infelizmente o museu não existe mais como concebido por seu criador, tendo a maioria do acervo sido enviado para outros museus públicos, além de uma parte para mãos particulares. Texto do Governo do Paraná adaptado para o blog.

Texto 2:

Uma estranha visita ao Museu David Carneiro:

De certa forma, me sinto um privilegiado por ter feito parte da história do desmanche do Museu David Carneiro. Um triste privilégio de que abriria mão de bom grado se fosse possível evitar essa página triste da cultura paranaense.

Mas explico porque considero um privilégio. Todos sabem que o prédio do museu foi dado em garantia de empréstimo pelo filho de David e que o Banco do Brasil acabou ficando com o edifício. O que muita gente desconhece é que o acervo do museu não fez parte da garantia. Felizmente, o acervo acabou sendo comprado pelo governo estadual (somos obrigados a bater palmas para Requião) e hoje está dignamente cuidado pelo Museu Paranaense – exceto pela parte relativa ao Cerco da Lapa, levada para o museu da histórica cidade, e papéis e biblioteca, que permaneceram com a família.

Procurado pelos Carneiro, acabei levando os 7.000 livros do historiador para a livraria, num contrato de consignação que agitou os meios culturais da cidade. Antes, tive de relacionar um por um todos os volumes, o que me deu um trabalho de um mês. Para fazê-lo, trabalhei dia e noite – literalmente – pois, além de listar os livros, precisava apreçá-los. Correndo o prazo, foi-me entregue a chave do museu para trabalhar em qualquer horário que pudesse, e aí que começa o motivo real de nossa história.

Sim, eu andei por alguns dias pelas 16 salas do Museu David Carneiro, semanas antes dele ser desmontado e encaixotado, condição em que ficariam as peças por alguns anos, até terem seu final feliz.

Andar por aqueles corredores e salas com centenas de armários, expositores, vitrines, displays, camas, canhões, espingardas, uniformes, quadros e mais quadros com episódios heróicos e retratos de vultos da Pátria, tudo com uma pátina de poeira, foi uma experiência estranha. De certo modo triste, mas fascinante.

Juro que ouvi barulhos, estalos e sons fantasmagóricos, mas sempre acho que devemos ter medo dos vivos, nunca dos mortos. Então, encarei com serenidade as energias contidas nos objetos de centenas de pessoas que já estavam em outro plano e que doaram peças ao museu, seus parentes e antepassados ou aqueles que usaram aquelas armas, vestidos e uniformes – e que, imagino, não estavam satisfeitas com o destino que naquele momento se aproximava.

Foram passeios solitários, de que ainda me lembro bem, apesar de decorrerem já mais de 20 anos. Interessante é que quase realizei esse passeio com o próprio historiador no distante ano de 1972, quando viajei de Ponta Grossa para visitar o museu depois de acertar a visita por telefone. Eu era um rapazote e ele se entusiasmou em poder me receber no dia marcado. Porém, chegando no museu, na rua Comendador Araújo, encontrei o mestre de saída para assistir o filme “Independência ou Morte”, aquele do Tarcísio Meira.

Perdi a visita ciceroneada pelo criador do museu, mas, em compensação, ganhei uma sessão de cinema comentada a cada minuto pelo meu guia, que me convidara para acompanhá-lo. Passou o filme inteiro corrigindo tudo: “Essa medalha não existia!”, “Esse uniforme está com a cor errada!”, “Nunca se falaria algo assim!”, etc. Uma lástima que não gravei a sessão, pois teria sido uma aula de história curiosíssima e antológica. O professor David era uma pessoa querida e bondosa, e tenho a honra de dizer que privei de sua companhia durante essas quase duas horas de ensinamentos.

O museu era um primor e haverá sempre que se lamentar por ele não ter sido preservado em sua inteireza e majestade. Mas esse é o preço que todo grande colecionador paga por juntar acervos importantes e não conseguir dar a ele um destino em vida. Os exemplos saltam às centenas, sendo o de David Carneiro mais notório por sua grandeza. A epopeia que foram os 20 anos desde a morte de David até que se desse um destino às milhares de peças é bem conhecida, bastando uma pesquisa na internet.

Duas salas marcaram fortemente minha memória e não posso deixar de citar. Uma é a do escritório, que ficava nos fundos do edifício e à qual se chegava subindo uma grande escada. Lá estavam – lembro com carinho – as coleções de cartas e manuscritos da coluna “Veterana Verba” que David publicava na Gazeta do Povo, com dezenas e dezenas de volumes em ordem cronológica, tomando quase metade de uma estante – e que lamento profundamente não ter negociado com a família.

Naquela época eu não tinha enraizada ainda a ideia de ter meu próprio acervo. Imagino hoje esse material sendo publicado, quanta informação, quanta riqueza para a história do Paraná. Lembro que esses papéis foram encaixotados e entregues à Igreja Positivista, ou Igreja da Humanidade, cujo templo ficava no museu e espero que estejam, hoje, bem guardados.

Sim, o templo da Igreja da Humanidade ficava no museu, com as janelas dando para a rua Comendador Araújo. Havia uma biblioteca estupenda com livros dos séculos XVI e XVII, obras dos iluministas Voltaire, Montesquieu e outros. Esses livros também foram levados junto com os demais itens do templo para uma galeria da cidade.

Lembro daquelas estátuas de “santos” que eram venerados, na verdade as Grandes Figuras da Humanidade. Assim, em nichos, havia imagens de Voltaire, Pitágoras, Platão e outros cultuados pelos positivistas. No centro do altar, ficava a estátua de uma mulher com uma criança no colo, sendo essa figura feminina a representação da Humanidade. Quer algo mais belo, mais simbólico e mais perfeito do que isso? Haveremos de escrever sobre os positivistas paranaenses, como o próprio David Carneiro, o professor Lourenço Branco e sua filha Clotilde, Paulo de Tarso Monte Serrat, João David Pernetta, Oscar Castilho e mais uma plêiade de grandes nomes. Os mandamentos do positivismo andam em falta neste Brasil carente de líderes com caráter, cultura, sabedoria, vontade de construir um país através da educação e do cultivo de valores cada dia mais esquecidos. Sim, a Igreja da Humanidade anda fazendo falta… Texto de Paulo José da Costa.

Texto 3:

O acervo do Museu Coronel David Carneiro tornou-se propriedade do Governo do Estado do Paraná em 2004. Todas as peças e obras do historiador serão integradas ao acervo do Museu Paranaense.

O Museu Coronel David Carneiro foi criado em 1928, mas sua sede definitiva – um prédio de mais de três mil metros quadrados, projetado por David Antônio da Silva Carneiro Júnior, foi inaugurado em 1952, junto à casa de seu proprietário, com entrada pela rua Comendador Araújo. Esta sede permaneceu aberta por mais de 40 anos, sendo fechada definitivamente em 1994.

Durante toda a sua vida o professor David Carneiro reuniu uma coleção representativa da História do Paraná e do Brasil. Seu museu, considerado a maior coleção particular de antiguidades do Estado, e uma das maiores do País, possuía um acervo de mais de cinco mil itens. Peças como uniformes e armas militares usados na Revolução Federalista e na Guerra do Paraguai, documentos e objetos históricos e, além disso, mais de cem quadros de personalidades da vida pública paranaense, raridades que o próprio historiador tinha o hábito de mostrar aos visitantes.

Inspirado e concebido dentro da filosofia positivista, de acordo com a doutrina adotada por seu idealizador, o Museu David Carneiro abrigava uma sala de conferências sobre o positivismo, realizadas aos domingos, e a Capela da Religião da Humanidade, local onde se evidenciava o gosto clássico que a arte positivista pressupõe e que estava consagrada nas obras ali representadas.

De acordo com Augusto Comte, fundador do Positivismo, a Humanidade é o "Grande Ser" que abrange a totalidade histórica. O ‘Grande Ser’ é o "motor imediato de cada existência individual ou coletiva", que inspira a fórmula máxima do Positivismo: "O amor por Princípio, a Ordem por Base e o Progresso por Fim". A religião Positivista, natural, racional, científica e exclusivamente humana, não admite mistérios, revelação, vontade sobrenatural e nenhuma crença cuja exatidão a sua razão não tenha podido demonstrar. Baseia-se no conhecimento do mundo e pretende concorrer para o aperfeiçoamento moral, intelectual e prático da Humanidade.

David Carneiro norteou sua vida pelo catecismo Positivista e contribuiu de maneira sistemática para a propagação dessa doutrina no Paraná, orientando incansavelmente todos que quiseram dela usufruir.

Dos historiadores paranaenses já desaparecidos e entre os em exercício, o professor David Antônio da Silva Carneiro (1904 ? 1990) foi um dos que mais trabalhos escreveu e publicou no esforço de resgatar, preservar e divulgar a nossa memória. Nascido em Curitiba a 29 de março de 1904, David Carneiro antes de ser historiador seguiu a carreira militar. No entanto, a morte de um amigo, Newton Prado, no episódio dos "18 do Forte" (1922), época em que estudava no Colégio Militar do Rio de Janeiro, levou-o a desistir da farda. De volta a Curitiba, matricula-se na Faculdade de Engenharia, diplomando-se em 1928.

No ano seguinte, 1929, o historiador começa a produzir a sua enorme biografia, redigindo um opúsculo sobre Guilherme Frederico Virmond, alemão de nascimento e possivelmente o primeiro pintor a se radicar no Paraná. E mesmo que, ainda no ano de sua formatura, tenha sido obrigado a assumir a empresa da família, por causa da morte do pai, um dos mais importantes industriais do mate do Paraná, David Carneiro conseguiu conciliar as atividades de empresário com as de historiador.

É nessa época que começa a tomar forma outra grande obra do autor, o "Museu Coronel David Carneiro" (em homenagem ao seu pai), de início um repositório de peças vinculadas ao Cerco da Lapa (1894) e hoje reunindo um dos mais preciosos acervos de objetos que contam a História do Paraná. E é justamente com "O Cerco da Lapa e seus Heróis", trabalho publicado em 1934, que David Carneiro começa a se impor no cenário local, destacando-se como um pesquisador de grande fôlego e profundamente vinculado às coisas de sua terra. Ainda dentro desse tema, A Revolução Federalista, o historiador produziu vários trabalhos, revelando-se uma das maiores autoridades no Paraná sobre o assunto.

No entanto, logo cedo, o autor não restringe sua produção à História do Paraná ou apenas à História. No mesmo ano da publicação de seu "Cerco da Lapa", escreve "Casos e Coisas da História Nacional", fazendo a primeira de uma série de incursões pela história do País. Da mesma forma, começa a se revelar também o David Carneiro cronista, poeta, ensaísta e romancista, além de biógrafo e jornalista. Positivista, por arraigada convicção desde os primeiros anos da juventude, começou a dedicar também a essa filosofia um bom espaço em suas produções.

Em 1943, David Carneiro deixa a direção da empresa de família e passa a se dedicar com maior vigor à produção cultural. É dessa época o seu primeiro romance histórico, "O Drama da Fazenda Fortaleza". Nesse livro, se o romancista dá vivacidade às cenas e aos personagens, o historiador não deixa de compartilhar da trama, revelando ao leitor os sertões de Tibagi no século XVIII. Ao mesmo tempo, comparece o pesquisador atento, que recolheu elementos de um fato verídico, revivendo a tragédia.

Paralelamente, quase que religiosamente, a cada ano, publicava um novo livro, o historiador dava início também à sua carreira como professor. De 1949 a 1953, dirigiu a Escola de Música e Belas Artes do Paraná, acrescentando aqui mais uma especialidade em seu múltiplo currículo: professor de "Arquitetura Analítica".

Na década de 50, demonstra mais uma vez sua versatilidade assumindo a cadeira de "Evolução da Conjuntura Econômica", na Faculdade de Economia da Universidade Federal do Paraná. Esta carreira não existia e foi criada especialmente para ele. E seu envolvimento com esse campo, estimula-o a produzir vários e importantes trabalhos sobre a história econômica do Paraná, revelando alguns aspectos pouco conhecidos de nosso passado. Além da Universidade do Paraná, esteve ainda vinculado à Universidade de Brasília, onde foi professor titular de História.

Na década de 60, David Carneiro dá início a uma outra fase de sua carreira como professor, a de professor-visitante em universidades dos Estados Unidos. As universidades de Nebraska, da Califórnia (UCLA), de Harvard e de Miami são algumas escolas daquele país onde ele lecionou História e Economia.

Os textos de David Carneiro somam-se às dezenas, vários deles vertidos para o inglês, francês, italiano e espanhol. Tomando especificamente os que dizem respeito à História do Paraná. É possível encontrar aí uma rica e viva fonte de subsídios para se entender, estudar e pesquisar o passado do Estado.

Dos seus romances históricos, é possível destacar o já citado "Drama da Fazenda Fortaleza", "Bárbara Heliodora", "Juca Teodoro", "Um Noivado em 1894" (reeditado posteriormente como "Bodas de Sangue") e "O Prussiano Pacifista".

Em relação à História do Paraná eis alguns títulos: "O Cerco da Lapa e seus Heróis", Os Fuzilamentos de 1894 no Paraná", "O Paraná e a Revolução Federalista", todos em torno do mesmo tema; "A Vida e a Obra de Afonso Botelho Sampaio e Souza" (importante documento sobre as bandeiras militares e de conquista dos sertões paranaenses, na segunda metade do século XVIII e um dos assuntos também prediletos do historiador); "História do Período Provincial do Paraná"; "História da História do Paraná"; "História do Incidente Cormorant"; "Efemérides Paranaenses"; "Galeria de Ontem", e dezenas de outros textos.

Quanto à História do Brasil: "Tiradentes"; "Floriano, Memória e Documentos"; Dos Troféus na História do Brasil"; "História da Guerra Cisplatina"; "Casos e Coisas da História Nacional". Ensaios: "Educação e Universidade"; "Ensaios de Interpretações Morais"; "A Marcha do Ateísmo"; "Dos Ciclos Irreversíveis em Cicloeconomografia"; "Brasília e o Problema da Federação Brasileira"; "Museus"; "Hipócrates e a Locação das Cidades".

É ainda de sua autoria uma "História Geral da Humanidade Através de Seus Maiores Tipos", em sete volumes. Há que, por fim, destacar o David Carneiro cronista, que manteve durante longos anos a coluna "Veterana Verba", no jornal "Gazeta do Povo", de Curitiba. Já o David Carneiro poeta coleciona também uma razoável produção, embora apenas parte dela seja de conhecimento público. Texto da Tribuna PR adaptado para o blog.

Nota do blog: Data das imagens não obtidas / Crédito para Paulo José da Costa.

Comentários


bottom of page